Elipse

Omissão intencional de uma ideia subentendida. Pode ser traída pela zeugma.

sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

Tempo de antena

A última vez que a viu assomar à janela foi para ver a sua Ophélia a rabiscar "Fuck you". Nunca mais ninguém conseguiu consolá-lo.




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quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

Esta noite levarei sapatinhos vermelhos


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sábado, 28 de Novembro de 2009

Dá-lhe música, acaricia-a






il Serpentone Feat. Asia Argento, directed by Paulo Furtado
Legendary Tigerman | Vídeos de Música do MySpace

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

St Martin nous fait faire la fête


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sábado, 7 de Novembro de 2009

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quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Andamos a arear as pratas da casa para recebermos outros gatos


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segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Nomeamos o desconhecido para aplacar os nossos temores


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quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

I'll be gone by the time you arrive




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sábado, 12 de Setembro de 2009

lembro-me de uma história que uma vez me contaste




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terça-feira, 8 de Setembro de 2009

Tocca e fugga




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quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

Lenda da Dona Pé de Cabra

De dom Diego Lopez, senhor de Biscaia, bisneto de dom From, e como casou com uma mulher que achou, andando a monte, a qual casou com ele com condiçom que nunca se benzesse e do que lhe com ela aconteceu.


Dom Diego Lopez era mui bom monteiro e, estando um dia en sa armada e atendendo quando viria o porco, ouviu cantar muita alta voz uma mulher em cima de uma penha.
E ele foi pera lá e viu-a ser mui fermosa e mui bem vistida e namorou-se logo dela mui fortemente e preguntou-lhe quem era. E ela lhe disse que era uma mulher de muito alto linhagem. E ele lhe disse que, pois era mulher de alto linhagem, que casaria com ela, se ela quisesse, ca ele era senhor daquela terra toda. E ela lhe disse que o faria, se lhe prometesse que nunca se santificasse; e ele lho outorgou e ela foi-se logo com ele.
E esta dona era mui fermosa e mui bem feita em todo seu corpo, salvando que havia um pé forcado, como pé de cabra.
E vivêrom grão tempo e houverom dous filhos e um houve nome Enheguez Guerra, e a outra foi mulher e houve nome dona...
E quando comiam juntos, dom Diego Lopez e sa mulher, assenteva ele a par de si o filho e ela assentava a par de si a filha, da outra parte. E um dia foi ele a seu monte e matou um porco mui grande e trouxe-o pera sa casa e pose-o ante si u estava comendo com sa molher e com seus filhos. E lançarom um osso da mesa e vierom a pelejar um alão e uma podenga sobre ele, em tal maneira que a podenga travou ao alão em a garganta e matou-o.
E dom Diego Lopez, quando esto viu, teve-o por milagre e sinou-o e disse:
- Santa Maria vale! Quem viu nunca tal cousa?...
E sa mulher, quando o viu assi sinar, lançou mão na filha e no filho, e dom Diego Lopez travou do filho e nom lho quis leixar filhar; e ela recudiu com a filha por uma fresta do paço e foi-se para as montanhas, em guisa que a nom virom mais nem a filha.




Nobiliário do Conde D. Pedro ou IV Livro de Linhagens, c. 1372

In Poesia e Prosa Medievais, Editorial Verbo, s.l., 2006, pp. 269-271
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domingo, 23 de Agosto de 2009

_ E _ _ _ _ _


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domingo, 9 de Agosto de 2009

SMS

Sublinhei as frases importantes, procurei as palavras difíceis no dicionário e tento empregá-las no dia-a-dia.
Fiz elenco das personagens principais e já as conheço pelos bigodes.
Revi figuras de estilo,
tracei itinerários sem repetir caminhos,
- leio em voz alta, rimo-nos em silêncio ou a bandeiras despregadas - e
perdemo-nos irremediavelmente em afamadas tragédias.

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Tanto achaque, champanhe,
desencontro, disfarce, odor a verbena, partida de xadrez, soirée no S. Carlos,
tanto fru fru com sedas, tanto sinal malabarista com leques e luvas, tanta pupila de veludo,
tanto furor em conhecer,
tanta jocosa piada, tanto jacobino,
tanto diletantismo,
tanto presságio e viagem de landau por tão tacanha cidade e

que arrebatamento romper com o romantismo oitocentista:

"Gajo, olá, que tal um caril de camarão cá em casa? Eu descasco o marisco, tu lavas a louça. Aí pela 1:30, está bem? É que não sou lá muito boa madrugadora."
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quinta-feira, 6 de Agosto de 2009

espraiando


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segunda-feira, 3 de Agosto de 2009

Crisografia

Disseste-lhe que as suas palavras eram raras pérolas. Com elas elaboraste um colar de mil contas com o qual a enfeitas e a forças a olhar ao espelho com luxúria e vaidade.
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quarta-feira, 15 de Julho de 2009

ilha mágica

Do miradouro da ilha mágica víamos uma outra coroada pelo castelo circundado por um braço de prata. Uma brisa soprava docemente, o sol caía no mar, o espaço era plausível e o tempo flutuava. Instalámo-nos na esplanada e pedimos um café e uma água das pedras para cada um. Disseste-me que me ias tirar uma fotografia onde aplicarias um filtro creme que eu depois retiraria. Fiz uma pose, afastei o cabelo dos olhos e acordei antes de disparares.

Pelo desejo da acção muitos sonhos ficam incompletos. Maria Zembrano lembra-nos que acordar devolve-nos ao tempo, o sonho criador anuncia e exige o despertar consciente.

alors,
digamos fiat,
vem cá fazer uma imagem e beber o café que já foi pedido.
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terça-feira, 14 de Julho de 2009

in and out

Distribui chaves, guarda identidades,
marca pontos, encontros e despertares,
inventa nomes de povoações, números e percentagens, cria nomes de praias, de pais, de países, queria raízes,
rios,
rizomas,
risos.

Por momentos ousa, insinua-se, insiste, resiste,
palavra em riste, palavra de honra,
falha o pé, falha a voz, falhamos nós,
prova ainda,
espeta-se, hesita, excita, espera,
mais um pouco, mais um esforço,
anda, mais um esforço ainda,
salta, vem,
salta pocinhas

Despe-se, despede-se, debulha-se.

Fala da bandeira, da bebedeira, da carpideira, das carpetes, da Penélope, da Joana Amendoeira, da Joana Vasconcelos, da Santa Joana, do Papa, da papa da Joana, do papá da Joana, do crochet, das colchas de Castelo Branco, do ponto cruz, das tapeçarias de Aubusson, de Portalegre, de Gobelins, dos tapetes de Arraiolos, da Pérsia, do Cáucaso.

Esqueceu a roca,
mudou de fuso, mudou de língua.
de parcas palavras, sorriu e seguiu viagem.

Comparou, regateou, resgatou, desbaratou,
toda rota inverteu rota, toda afoita atalhou caminho,
perdeu o fio à meada, rosnou, ronronou, divergiu

Aludiu sobre a rua do Ouro, o rio de ouro, o Douro, a filigrana, o apego, o desafogo, a cúria, a incúria.
Com ensejo espraiou-se sobre terramotos e maremotos, saídas de emergência, pegas de caras, pegas de cernelha, pêgas no tecto, pêgas na rua, pêgas no ar, pára-quedas para quê?

Grelado, grelhado, cozido, frito, estufado, escalfado, fodido. Gato escaldado de água fria tem medo.

Beneditinos, cistercienses, franciscanos, dominicanos, carmelitas descalças, barbadinhos, bigodinhos, templários, rosa-crucianos e pelicanos.

Discorreu sobre as sete saias, as sete colinas, os rabos de saia, os figos da Índia, o Made in India, o Made in China, os achaques, a xícara de chá, a falta de chá, a falta de tacto, a falta de tecto, a falta de ti.

Viu os cornos do ministro, a apanha do isco, comeu iscas com elas, bebeu ginjas sem elas, moveu-se, sacudiu, petiscou, comoveu-se,
ninguém a comeu –
observou
tudo a sorver –
sorvete.


Palrou sobre agricultura, criação animal, gripe das aves, gripe suína, vacas loucas, milho trangénico, fenómeno do Entroncamento, contou carneiros, comeu borrego, berrou, borregou, olhos de carneiro mal morto, cruzes canhoto

e pernas de gafanhoto.

Passeou, mandou passear, pavoneou, palmilhou, catou, foi passear macacos, com mil milhões de macacos, palermas por toda a parte, todos pintas, troca-tintas, Palermo, macacos me mordam, máfia, má fila, língua de trapos, engole sapos.

Dislexia, língua bífida, faz de conta que percebe o dialecto, que percebe a anedota, que não ouviu o seu nome,
Faz de conta que leu, que ligou, que pagou, que bebeu.

Cantarolou, escrevinhou, suspirou, mandou calar, declinou a palavra, declinou o convite.

Pisou o risco, pisou o túmulo, pisou o chão de xisto, de pau-santo, de nogueira, de carvalho, de cortiça, de granito, de calcário, de alcatrão, cortou o dedo e o pão

Apontou para cegonhas, para salinas, para cimenteiras, pimenteiras, Nossas Senhoras, Cristos, santos, dejectos, buracos, coroas, livros, teatros, escadas, entradas, saídas, lençóis, girassóis.

Se tu visses o que eu vi,
solidó,
à porta do tribunal

Ganhou dinheiro, perdeu juízo, pirou-se – Doutor Língua também se perdera.
Assediada ou ignorada, desarrumada ou alinhada – Monsenhor Gago também dissera obscenidades após abençoar os presentes.

Definiu posições, números, percentagens, rankings, margens, dados, ritmos, andares, quarto 421, quarto andar, quarto 224, 1014, 731, 1133
Todos os dias dormir em camas diferentes, faces sobre novas almofadas, toalhas sempre brancas, camas sempre feitas, bom-bons à espreita, todas as manhãs disfarçar a voz, sempre vozes novas a acordar e desejar os bons dias,
aprender a dizer sempre a mesma coisa com inusitada alegria, B A Bá,
traduzir,
Alibabá e os 40 ladrões,
1111, 1147, 1290, 1383-85, 1415, 1498, 1580, 1640, 1755, 1834, 1910, 1917, 1974, 2009

Alfacinhas, tripeiros, minhotos, conimbricenses, transmontanos, galegos, couve-galega, couve-flor, come o que houver, o couvert muito caro, a cavalo dado não se olha o dente, cavalinha, cavalitas, ao colo, cavolo, chapa cinco e o diabo a sete.


Manca marcha, marca mancha,
pinta tela tosca, imagem sempre fosca
mastiga e deita fora,
mosca-morta, letra-morta, mão morta vai bater àquela porta.



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À beira-mar, à beira-mágoa, faz troça de si, Ulisses,
S, sempre sinuosa, sempre só

Faz jogo de cintura – murmura,
torce o torso, não importa a dor,
escuta o pescoço a clamar amor
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quarta-feira, 1 de Julho de 2009

_ _ _ Ó _ _ _


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sexta-feira, 26 de Junho de 2009

tsunami

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quinta-feira, 25 de Junho de 2009

é preciso cultivar o nosso jardim

"(...) e Pangloss dizia por vezes a Cândido: «Todos os acontecimentos se encandeiam no melhor dos mundos possíveis: pois, enfim, se não tivésseis sido escorraçado de um belo Castelo a pontapés no traseiro por amor da menina Cunegundes, se não tivésseis sido supliciado pela Inquisição, se não tivésseis corrido a América a pé, se não tivésseis trespassado o Barão, se não tivésseis perdido todos os vossos carneiros do bom país do Eldorado, não comeríeis agora aqui limas em compota e pistáchios.» - Muito bem dito, respondeu Cândido, mas é preciso cultivar o nosso jardim."
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Cfr. Voltaire, Cândido ou O Optimismo, Lisboa, Tinta da China, 2006, pp. 170-171.
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Sabendo que a sátira ao optimismo faria parte do Index Librorum Prohibitorum, Voltaire publicou-a clandestinamente e de modo anónimo em 1759. A paródia, com grande divulgação, tem também como periclitante palco, a Lisboa do Terramoto, da qual os heróis escapam ilesos "ao último dia do Mundo" e à subsequente fúria para expiar os pecados através dos autos-de-fé.

Se Voltaire se permite estabelecer admiráveis nexos causais, dou-me à liberdade de dizer que os pistáchios existem desde o campismo em Espanha, i.e., há cerca de 25 anos, ao passo que, conforme a tradução de Rui Tavares, existem pelo menos desde meados do século XVIII... Já na edição da Inquérito, do tempo dos meus avós, ou quando as Noites Brancas do Dostoiewski custavam apenas 25 escudos, a frase do filósofo Pangloss termina deste modo: "não estaríeis agora aqui a comer amendoim e doce de cidra." Em que é que ficamos ?

Não é substituível a leitura na língua original, porém, comparando uma e outra tradução, é tocante o pudor de certas frases que se explicam no quadro da sociologia literária e na acção do censório lápis azul do Estado Novo.

Errata : onde se lê "encandeiam" deverá ler-se "encadeiam".

Perplexidade : O nome Cunegundes existe !
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quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Escrita opaca

X na sua alienação tem algo a dizer. Envia uma mensagem a Y.

O receptor será incapaz de ler ou reconhecer a caligrafia –
ali verá apenas alguns pontos e linhas, o traço grosso a preencher uma mensagem vazia.

Y recorre a Z,
que identificará o signo
mas não o significado.

O remetente detecta limites num alfabeto sagrado.
Por seu turno, o intermediário, com o seu aparelho vocálico,
não emite as justas consoantes e vogais pelo que
as palavras ganham autonomia na comunicação tripartida e errática.

O destinatário da mensagem corrompida pela escrita e pela fonética,
talvez pense, revoltado,
que
não pode sempre compaginar com a desordem,
que
os homens nasceram a gritar e cresceram a calar,
que
a língua não brotou do berro,
que
nos fios de voz existe (inútil) silêncio e mistério,
que
(não) quer desenrolar uma contínua palavra vã,
que
na tinta permanente há descompassos,
que
a escrita deixou de funcionar como auxiliar da história e da memória,
que
o vazio (não) é destituído de sentido,
que
se escrever é fazer existir a voz, aquela é inaudível ou um acto-falhado,
(ou) que
no fosso entre a oralidade e a escrita se inventou outra língua.


Perante o lúdico acto e o objecto caligráfico – o papel translúcido e a escrita opaca, –
matutarão sobre a (im)possibilidade do romance
ser traduzido em versos indecifráveis.
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sábado, 13 de Junho de 2009

Mosaico e predelas







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sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Preparativos para a mais longa noite lisboeta

Diálogo entre uma fiel às festas e o Santo:
- Mais loguinho umas ginjas com elas. Nada com eles, Santo António?? Sabes o que fazem outros com os seus santos?
- ...
- Cortam-lhes os braços ou deixam de falar com eles.
- Isso é uma promessa ou uma ameaça?
- Olha o que aconteceu à Virgem, tiraram-lhe a coroa e puseram-na de castigo virada para a parede.
- Intentarias algo contra mim?
- Roubaria a tua língua exposta em Itália e trazia-a para a tua terra.




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quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Noites de Elis


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Dias de Elis


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domingo, 7 de Junho de 2009

Desconcerto

Não conheço a obra nem os intérpretes. Reconhecerei apenas o momento em que a orquestra afina os instrumentos nos breves instantes de prazenteira cacofonia, em que o público aproveita para trocar as últimas palavras da hora que se seguirá. Cruzo a perna enquanto desvio o cabelo para trás da orelha e, com falso interesse, inclino-me em direcção à boca do homem, que não desejo, que me sussurra algo. O som entornado para fora dos instrumentos de corda prevalece e o homem não se faz ouvir. Fleumática, sorrio educadamente sem lhe devolver o olhar. Fazia questão de ignorar o meu parceiro no momento último de desordem acústica para concentrar a atenção na caixa de ressonância de um violoncelo e no pormenor da sinuosa fenda em espelho entre cordas em tensão que me fez lembrar o monograma por cumprir.
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sábado, 23 de Maio de 2009

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A frase é do Leonard Cohen em Suzanne
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quarta-feira, 20 de Maio de 2009

diálogo entre vizinhos cegos

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sábado, 16 de Maio de 2009

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domingo, 3 de Maio de 2009

(trabalhando)


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Goya
gravura
Caprichos, 43
c. 1797
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terça-feira, 28 de Abril de 2009

Meridianos

O corpo era uma gigante embarcação
que ao invés de oscilar bombordo/ estibordo,
numa imobilidade aparente
viajava no espaço gasoso,
através de um subtil e dócil movimento pendular, ora à proa ora à popa.

Uma corrente eléctrica percorreu-a de imediato, como um feixe de néon, num continuum, sem crescendo, de uma extremidade à outra. Não se tratava de intercâmbio com energias exógenas; a origem estava em si, bastava apenas sintonizá-la na sua máquina orgânica.

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Quando ele tirou a agulha (de marear?) o corpo ganhou uma rigidez estóica na sua vulnerabilidade.




Segundo a medicina tradicional chinesa, o corpo humano tem 65 meridianos (canais pelos quais passam a energia e o sangue), e os pontos mais difíceis de alcançar são os pontos “mar”.
O que quer que isso seja, contribui para fazermos poeticamente uma espécie de cartografia íntima.
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quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Vertigem


.....O toque despertou-a para a vigília surreal.
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quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Aurora


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segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Montanhas de acções


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sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Convite


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quinta-feira, 16 de Abril de 2009

|| Nós nas cordas vocais ||

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Nós || Voz

Vós \/ Nós


*Como se produz a Voz?

Ao sentir vontade de falar, o cérebro transmite impulsos nervosos aos músculos do sistema respiratório que, ao contraírem-se, geram uma certa pressão sob o volume de ar nos pulmões, que é forçado a subir ao longo da traqueia. Chegando à laringe (onde se encontram as pregas vocais formando um V invertido), o ar flui pelas pregas vocais, errada e comummente chamadas “cordas vocais”, colocando-as em vibração, gerando um som. O som emitido é modulado e ampliado pelo aparelho vocálico (cavidades de ressonância: faríngea, bucal e nasal e estruturas articulatórias, que se movimentam: lábios, língua e mandíbula), originando a voz, como um conjunto de sons da fala.


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Até onde chega a voz?


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Preliminares da caligrafia sónica...



...para desfazer nós, ou antes, para nos desfazermos.

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* Imagem das pregas vocais e adaptação do texto da produção da voz daqui
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quinta-feira, 26 de Março de 2009

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Das tuas mãos desejo
a precisão da acupunctura
os códigos de uma dança indiana
a força do estivador
o mapa do deserto
a sorte mentida por uma cigana
o riso
a ternura
o som puxado pelo chefe de orquestra
a protecção obscena de uma figa.




Diz-me como me queres no nosso encontro:


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quarta-feira, 25 de Março de 2009

M _ M _ _ _ _

Quis entornar-se numa atmosfera cálida; fazer ascender em si o elemento líquido
(transbordou)
Quis encurtar a distância entre a palavra e o sentimento
(afundou)


M______ \ M
What a girl /Water girl

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segunda-feira, 9 de Março de 2009

_ _ _ _ R I A

Perdura o diálogo habitual em direcções distintas após cada regresso, seguido do rol de hecatombes, logros e informações comezinhas sobre A., B., C., …

- Como estava a cidade luz?
- Com o céu branco onde contrastavam os corvos que aqui vês apenas nos candeeiros.
- Mas conta, conta o que fizeste...
- Uma extensão natural da minha vida.
- Deves ter imensas fotografias para mostrar!
- …
- E já estás de novo ambientada? Voltaste às tuas rotinas?
- Não, prefiro os iogurtes de lá.



A. (X=X=X=X)olvidou-se de pagar a conta da água
B. (X=X=X=X)em mês e meio, viajou três vezes pela Europa e América Latina
C. (X=X=X=X)continua no silêncio e procura o seu nome naquilo que outros fazem
D. (X=X=X=X)não descreve nuvens inomináveis
E. (X=X=X=X)já sabe escrever
F. (X=X=X=X)recebeu confirmação de bolsa
G.(X=X=X=X)voltou a sonhar com a regularidade de outrora
H.(X=X=X=X)deu à luz no mesmo dia em que nasceu (). Foi uma festa na maternidade; pouco faltou para a sardinhada
I. (X=X=X=X)iniciou projecto poético
J. (X=X=X=X)não poderá sentir as mãos do massagista predilecto pois ele mudou de ramo de actividade
K. (X=X=X=X)comprou novo caixote de lixo
L. (X=X=X=X)zangou-se com o merceeiro
M.(X=X=X=X)lavou pela última vez no Inverno as suas roupas de lã
N. (X=X=X=X)sentou-se num baloiço sob um pinheiro manso
O. (X=X=X=X)vestiu umas meias com canhão rendado num dia de vento
P. (X=X=X=X)plantou ervas de cheiro e conta beber brevemente chá verde com menta fresca
Q. (X=X=X=X)recebeu um mau diagnóstico
R. (X=X=X=X)sente a variz hereditária a latejar
S. (X=X=X=X)continua a dormir até o sol estar alto
T. (X=X=X=X)não viu o seu contrato renovado
U. (X=X=X=X)alegra-se por ter arrancado a alcatifa da sala e agita-se por ter de arrancar um dente
V. (X=X=X=X)prepara livro de fisiologia
W.(X=X=X=X)não gostou do novo filme do Mike Leigh
X. (X=X=X=X)descobriu que é alérgica a pêra-abacate
Y. (X=X=X=X)apaixonou-se e mete-se em maus lençóis
Z. (X=X=X=X)trabalha num call center, apesar de, ou por ser licenciada em Filologia Clássica e ter família numerosa


Sei que estas pessoas emprestam as suas vidas a histórias devidas.
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sábado, 28 de Fevereiro de 2009

- Partida, largada, fugida!

- E quem chegar por último é um ovo podre!


Partida, s.f. (do Lat. partitus < partire) 1. Acto de partir; saída; abandono. 2. Número de jogos necessários para que um parceiro ganhe. 3. Reunião de pessoas amigas com o fito de se distraírem; serão. 4. Porção de mercadorias recebidas e expedidas pelo comércio. 5. Nota de crédito ou débito num livro de escrituração comercial. 6. Fam. Pirraça; acinte.

Acrescento ao dicionário outras definições: 7. Começo. 8. Fam. Exaustão.

Parto do Sétimo Céu para o Infante das Sete Partidas.
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sábado, 17 de Janeiro de 2009

Meter-se na toca do lobo




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Toca na Lobau



quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009

Drifters # 2


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Longe de mim, preta de ti, perto de mim,
o cheiro de morte acorda-nos para a vida.

Separamo-nos sem despedidas, abandonamo-nos sem entrega e fazemos pouco de nós quando queremos tanto de nós.

Continuo com jogos de espelhos e projecção e luto contra aquelas que não quero ser.

Refuto registo diarístico para que tudo seja eterno e etéreo.

Partes antes de mim mas eu chegarei primeiro ao meu destino.

Como alinhar o alfabeto quando eu me cubro de novas gramáticas e consoantes levemente aspiradas enquanto tu decretarás novas vogais?




segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

Drifters # 1

Os zéfiros e os ábregos começam a enfunar as velas, e as emoções a ficarem mais líquidas. Em breve podemos começar a deturpar a memória em elogios à deambulação.

Note-se a artimanha semântica entre vaguear e o termo, que mais aprecio, deambular. Se desejarmos vaguear, então que seja na acepção de vaga (onda) e não de vago (vazio).



quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

Por um segundo não chegarás atrasado

A rotação da Terra tem vindo a abrandar cerca de 0,002 segundos por dia. Tal desaceleração prende-se a múltiplos factores, nomeadamente aos efeitos das marés, da órbita lunar, do vento solar, de tempestades magnéticas, do degelo da calote polar…
Este fenómeno passou quase despercebido até à criação do relógio atómico em 1949 fazendo com que o segundo exacto e a sua contagem cumulativa em minutos, horas e dias, tenha prescrito pois deixou de coincidir com a rotação do planeta azul.
Para ultrapassar esta décalage entre o tempo da terra e o tempo dos homens é necessário acrescentar um segundo, hoje, às 23:59.

O número 60 reivindica a sua patine, enferruja, perde perfeição e ganha outros encantos.
Os mesopotâmicos, fundadores da ideia de divisão do tempo em 60 unidades, terão razões para implorar um novo alinhamento entre o tempo e o espaço.

De que modo beneficiar desse lapso?

Consultando de novo a carta astrológica, concluiremos que andámos a ler as previsões erradas toda uma vida e que temos esperança que o coelhinho da Alice do País das Maravilhas chegue um dia a tempo e horas para os seus afazeres.

A todos vós, a viva voz, votos de continuação de Boas Festas e de muitas festinhas em 2009!







Para outras informações:

National Institute of Standards and Technology (NIST)

International Earth Rotation Service (IERS)

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quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008

Sê meu guia espiritual, corta-me o cabelo









Sê cego, sê breve, sê leve, sê breve
Sê meu guia espiritual, corta-me o cabelo
Sê meu guia espiritual com excesso de zelo


(Três Tristes Tigres com os Três Gatos)
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segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

I'm gonna wash that man right out of my hair # 2






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Foto: detalhe do portal manuelino da Catedral de Lamego
Música: Ella Fitzgerald, "I'm gonna wash that man right out of my hair", 1952
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domingo, 21 de Dezembro de 2008

I'm gonna wash that man right out of my hair # 1

Sheela-Na-Gig é a representação medieval de uma criatura grotesca exibindo a sua grande vulva. Surge em contextos sagrados e profanos, por vezes na presença de uma figura masculina, e é particularmente recorrente na Grã-Bretanha, Irlanda, França e Espanha.
Entidade que adverte para o pecado da luxúria? Imagem associada à abundância, fertilidade e protecção? Sobrevivência de um ritual pagão? Divindade aquática que respira água ou ar (normalmente inofensiva, a menos que se sinta ameaçada)?
Estudos etimológicos associam o nome Sheela-Na-Gig a uma dança setecentista; "gig", no calão inglês, corresponde ao termo para a zona genital feminina.

A fotografia (em negativo) é de um pormenor da escadaria de acesso ao dormitório do Convento de São Martinho, em Santiago de Compostela. Uso-a abusivamente neste contexto visto que as frutas e a massaroca que envolvem a figura híbrida permitem essas extrapolações.






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Música: "Sheela-Na-Gig" da incontornável P.J.Harvey

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quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

Banda sonora para um corte

Amanhã é o dia.




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domingo, 7 de Dezembro de 2008

Promessa de frases fei(t)as

A intérprete sem léxico encontra o ar em números asfixiantes,
torna a falar por monossílabos,
brinca com palavras onomatopaicas - sussssurrrra

Confiando que há lugares à espera do seu sossego, a guia não consulta o mapa das coisas perdidas,
sabe bem que um ponto é um espaço entre o nada e o vazio.

Música com constelação de referentes:






"Há lugares à espera do teu sossego"
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terça-feira, 2 de Dezembro de 2008

tradutore traditore

Restaurada a independência, recuperados os músculos, retomadas as palavras, renovadas as armadilhas,
arregaçamos as mangas e rebelamo-nos contra o melhor móvel português - o joelho,
sobre o qual são concebidas maravilhas.

Eis a tradução de uma dessas:




Atraiçoo-me vorazmente com flores e poesia AQUI sublimadas.
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quarta-feira, 15 de Outubro de 2008

Paralelos convergentes

Sim, o amor é como o Anticiclone dos Açores. Todos sofrem os seus efeitos, alguns falam dele, e ninguém conhece o fenómeno verdadeiramente.

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sábado, 4 de Outubro de 2008

Voz off



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"Li numa revista científica que as baleias comunicam entre si por meio de ultra-sons. Têm um ouvido apuradíssimo e conseguem captar os seus apelos a centenas de quilómetros de distância. Em tempos os bandos comunicavam entre eles das mais distantes posições do globo; normalmente eram chamamentos amorosos ou outro tipo de mensagens cujo significado para nós é desconhecido. Agora que os mares estão cheios de ruídos mecânicos e de ultra-sons artificiais, as mensagens entre as baleias sofrem demasiadas interferências para que elas possam captá-las e decifrá-las. Elas continuam a mandar inutilmente sinais e apelos que vagueiam perdidos pelos abismos."
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In, Mulher de Porto Pim, Antonio Tabucchi
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segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

Se esse que esperei
viesse ainda, que faria?
Este jardim cheio de neve
é demasiado belo
para ser pisado agora.
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Isumi Shikibu (974? - 1034?)


In, O Japão no Feminino, I, Tanka, séculos IX a XI, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007

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terça-feira, 26 de Agosto de 2008

"Que horas são?", perguntou-me

Tive o reflexo oblíquo de procurar a referência pendurada na parede. O tempo estava tão acelerado que, juro, procurei o ponteiro das horas na ventoinha. No Zé Manel dos Ossos, até a ASAE suspeitar, suga-se o tutano com o maior prazer pelo requinte desbragado.

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sexta-feira, 22 de Agosto de 2008

sonho sonhado


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(…) A casa era muito luminosa, com grandes portadas que davam para um jardim no qual brotava um rio. A composição do quadro exterior era semelhante à de um desenho infantil, com dimensões e perspectivas erradas, com sobreposições e colagens de papéis brilhantes, a relva do verde-relva, o rio de cor muito água. Eu estava a dormir e as minhas pernas esticadas encontravam-se perfeitamente alinhadas com o fluxo do rio. Tinha deixado de me preocupar em ter a cabeça voltada para norte, queria antes orientar-me com os elementos e estava envolvida numa aura de felicidade regeneradora. As cores primárias deram depois lugar às de tom pastel e, quando acordei, tive uma vontade inaugural em banhar-me naquelas águas. Impregnei a pele numa substância mais viscosa que líquida, que escorria pelas costas como grandes gotas, esculpidas como asas de água/ferro-Chafes, impossíveis de sacudir ou elevarem-se. Comentei com a minha mãe que achava estranho nunca antes ter tido desejo de ali mergulhar, nem mesmo interesse em conhecer o nome ou percurso do rio, de modo que, com um dispositivo de navegação, segui o seu eixo, à procura de uma localidade cujo nome reconhecesse. Tive medo de despertar antes de identificar o rio. (…)
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quinta-feira, 14 de Agosto de 2008

Hall 18:30

vivace scherzando
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quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

Hall # 1719

adagio ma non troppo
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terça-feira, 12 de Agosto de 2008

Hall # 321

fanciulla gentile
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sábado, 9 de Agosto de 2008

Passarinhos, passarões e PPP



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"Il cammino incomincia e il viaggio è già finito"
[Intertítulo do filme de Pier Paolo Pasolini, Uccellacci e Uccellini,1966]

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Eis um excerto desta belíssima obra rodada a 4253 km de Istambul ou a 13257 km de Cuba, com o primeiro encontro de Totò e Ninetto e o intelectual de esquerda (mais tarde devorado).
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Não resisto a outro trecho com tantas referências evidentes e subtis. As alusões ao Partido Comunista Italiano, à conquista do espaço, à China, à fragilidade humana, às comunidades rurais da periferia romana; as portas e as irónicas placas de informação, os planos e o recorte da imagem, a hilariante fuga, os rostos esculpidos, as vozes e as expressões italianas, os apelos do corvo, a implacável dupla… e sempre a música de Morricone, os assobios, as canções, o chilrear, os sons bélicos, bucólicos e urbanos!
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sexta-feira, 8 de Agosto de 2008

Cartas sobre o Mare Nostrum #


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Do Mare Nostrum (deles), torno aos nossos mais que mares, aos nossos amores, o Mar da Palha e o Atlântico. E novamente a frase-eco de todas as infâncias portuguesas desde os anos 40, do Alexandre O'Neill, para as campanhas do Instituto de Socorros a Náufragos: "Há mar e mar, há ir e voltar".
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domingo, 13 de Julho de 2008

Laços

Ele apenas caminha quando não vai a lado nenhum. Nessas viagens misteriosas, seguimos lado a lado, serena e silenciosamente. É assim o Verão:








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"Summetime" de George Gershwin, interpretado pela Amália
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quarta-feira, 9 de Julho de 2008

Infinito Vinicius

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POÉTICA (I)




De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.



(_______________________)Nova York, 1950




Vinicius de Moraes

In, Livro de Sonetos, São Paulo, Companhia das Letras, 2003
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domingo, 6 de Julho de 2008

"palavras apetrechadas de asas":

Titi: ....Vou atar estes balões aos pés e irei a voar para casa.
Petiz: .Mas o vento não sabe onde moras...
Titi: ....E tu não sabes o que é ser "um pé de vento"??

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[as "palavras apetrechadas de asas" são roubadas a Homero e as palavras herméticas são para quem as conseguir apanhar]
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quinta-feira, 3 de Julho de 2008

Ela é a tua casa

Segues uma rua no prolongamento da praia
Desenhas uns degraus para te abeirares da tua adorada
e fechas uma janela para te veres projectado na sua imagem, para a possuíres dentro do teu rosto, através do cristal.
Pensas em percorrer com o polegar a sua linha ondulante entre a cova do ladrão e o osso sacro.

Mas a bela acordou,
não é mais desse mundo,
mudou de casa ou vive histórias de corsários.

E no pino do meio-dia nada resta de ti, nem a tua sombra toca a parede exangue.
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sábado, 28 de Junho de 2008

Hall

Subiu ao último andar do edifício e, chegada ao seu destino, o elevador parou após um soluço metálico. Estava fisicamente extenuada e fez essa viagem como a derradeira, depois de uma série de travessias, de deslocações a pé, de apanhar transportes, de subir escadas rolantes, de atravessar praças… Abriu as portas em fole e saiu. Ia visitar um amigo e na sua cabeça ecoava “je suis venu te dire que je m’en vais” do Gainsbourg.
Quando se preparava para mandar uma mensagem a dizer ao seu anfitrião que tinha chegado, reparou na data exibida no ecrã do telemóvel e apercebeu-se que aquele não era o dia em que deveria chegar. “Bolas, chego sempre atrasada a todo o lado, e logo hoje venho um dia antes!” Já era quase noite e, carregada como estava, não lhe apetecia cirandar na cidade desconhecida à procura de um hotel. Estava habituada a viajar ligeira e não compreendia sequer como tinha chegado ali sem ajuda a acartar duas enormes malas, uma mochila pesada e tantos outros sacos. A que propósito trazia tantos volumes? Ela própria não o sabia.
Preparou-se para dormir junto ao elevador. As cores do corredor eram agradáveis à vista naquele lusco-fusco, o amarelo-torrado das paredes rimava com a sua carteira laranja da qual fez uma almofada. Quando finalmente encontrou conforto, passou um morador do prédio que a olhou de soslaio, desconfiado.
Não queria que a tomassem por uma vagabunda pelo que ligou de imediato ao seu amigo a ver se ele tinha alguma ideia onde ela poderia pernoitar. Ele disse-lhe que estava acompanhado e que não podia ficar com ela nessa noite. Contava animado o que tinha programado fazer com ela no dia seguinte, o que ela achou que seria uma forma de ele se esquivar à sua presença...ao preencher o tempo com programas familiares e culturais resultaria em não terem tempo para eles. Na sua conversa telefónica disse-lhe ainda que apesar de não estar em casa, que ela podia dormir lá, que a porta não estava trancada, que os lençóis estavam limpos.
Questionou-se por que razão teria ele deixado a porta aberta e feito a cama de lavado. Seria seguro? Estaria à espera de alguém? E instalou-se em casa dele. Entretanto, ao contrário do que estava à espera, ele chegou enquanto ela arrumava os seus pertences. “Não fizeste a mala, pois não?” Fazer a mala de viagem pressupõe uma selecção criteriosa dos objectos do quotidiano que levamos para uma extensão da nossa vida, implica uma capacidade de prever o que se vai usar em determinadas circunstâncias, conjugar roupas com mapas e climas, casaco para a noite, sapatos confortáveis para caminhar, mala a condizer, presentes para os amigos, livro, música, carregadores de baterias, produtos de higiene pessoal não demasiado grandes… “Não, trouxe tudo", respondeu, "posso cá deixar tudo e levar tudo o que deixei para trás.”
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Estava de chegada e de partida, sempre o mesmo boomerang… Compreendeu então porque se encontrava tão cansada.
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sexta-feira, 27 de Junho de 2008

Diálogo de três em pipa

- Por que raio tenho um espaço na internet que não criei?
- Porque é automático.
- Então fala-se nele e ele passa a existir?! Há que acreditar na dimensão performativa da linguagem.
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Ref.:
René Magritte, A Traição das Imagens, 1928-29
Michel Foucault, As Palavras e as Coisas, 1966
Dicionário de calão francês-português/ português-francês
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domingo, 15 de Junho de 2008

Rosa dos Ventos

Era o final de tarde clássico de meados de Junho, com as horas esticadas e os azulejos a rivalizarem com os reflexos do rio. Eu rumava para o grande Sul (que não é mais que o Oeste em árabe) e, ao passar de carro por Alfama, vi o Flying Dutch. Ele aguardava alguém à porta de um restaurante, perto da Casa dos Bicos. Estava com um ar jovial, com uma camisa branca do branco exacto que lhe realçava o cabelo claro e o tom dourado da pele. Disse-lhe que estaria fora de Lisboa uns dias e que, com grande pena, não celebraria o Santo António na sua cidade natal, mas se ele cá estivesse quando eu voltasse, iríamos jantar juntos.
Fim da viagem onírica antes da viagem real.
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Demorei-me na Ponta do Medo Grande, recordei e sonhei com os amores de Verão e regressei à Rua do Açúcar. Virei depois para Norte, e lá estava no quartel o nosso jacarandá ainda florido. Se essa árvore se adaptou ao novo clima e foi perdendo a memória genética, tem igualmente o dom de me fazer lembrar de ti, de quando chegaste e de quando partiste. Soubeste ao gosto agridoce e saberás de mim.
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segunda-feira, 9 de Junho de 2008

Ensaio


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quarta-feira, 4 de Junho de 2008

Doença da pele curta

O homem cerra as pálpebras, encosta a cabeça no vidro e tenta sair do metro. Pretende descansar mas fica mais sensível ao toque de encerramento das portas. Volta a abrir os olhos para poder esquecer o apito.
Procura distrair-se observando as pessoas na carruagem e põe os óculos escuros para contemplar livre e despudoradamente a cega sem cavidade ocular. Que esconderá aquela pele tão esticada? Com os óculos escuros fica meio mouco pelo que os tira para a ouvir melhor. Que vida conta esse cega mesmo cega?
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Lança-se à estrada. --------------- (15 passos). Abre os olhos. Certifica-se da ausência de buracos, de poças de água, de transeuntes, de presentes caninos, de bifurcações, de cruzamentos, de escadas... Fecha os olhos e continua o caminho. Mais 20 passos na escuridão.
Por não se desviar da linha virtual sossega-se "não me diagnosticam labiritintes".
25 passos... Não existem obstáculos na sua estrada, pode seguir em paz... mais 27... Não resiste e abre os olhos! "Quem disse que havia paz?"
Que necessidade terá em contar os passos? Em ordenar o invisível? Em prever o desconhecido?
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Queria entrar no museu para cegos mas os funcionários seriam surdos. Não o ouviram bater à porta.
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sexta-feira, 30 de Maio de 2008

Quarto com vista



"Wir haben uns um Traum verpasst"


quarta-feira, 28 de Maio de 2008

Chaves




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Ao sair à pressa, esqueci-me da chave dentro de casa. Alguém disse que não tinha que me apoquentar pois poderia abrir a porta passando suavemente com um pincel na fechadura. Assim o fiz.
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O Jerónimo era trapezista e saltou para cima de um muro com grande agilidade para aí ir buscar a chave de minha casa que estava escondida num canteiro. Ficou com as mãos sujas ao remexer na terra fértil. Encantavam-me tais proezas acrobáticas e, inusitadamente, saltei também para cima desse muro. Não me incomodei que ele tivesse a minha chave e tivesse entrado. Conversava comigo como se nada fosse.
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quinta-feira, 22 de Maio de 2008

Ghosts


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Sonhei que te perguntava "do you have ghosts in your mail box?"
Respondeste que sim, que já tinham chegado.
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Hoje é feriado L., não vale a pena ir lá abaixo...
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sexta-feira, 16 de Maio de 2008

Receita e boas maneiras

Se estivesse em Odeceixe, que não é carne nem é peixe, a única indecência continuaria a ser a de comer percebes de faca e garfo. Percebes, percebes?
Como não me encontro lá, cá hesito entre um atum e outro. Acreditar no coração “rico em omega 3” (seja lá o que isso for), ou na seriedade das suíças do Sr. Tenório? Tenório ou Tenorio??
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Sugestão para um dia estival na costa vicentina:
Apanhe os percebes na maré vazia. Apanhe os de lábio vermelho e não os castanhos.
Passe-os por água corrente para que percam a areia.
Introduza 1 kg de percebes em 3 litros de água do mar a ferver. Aguarde até levantar fervura novamente e retire de imediato.
Acompanhe com um Alvarinho gelado.
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domingo, 11 de Maio de 2008

Ω - A - Ω

I. Dias de Finisterra, de cruzeiros e caminhos, de representações da morte e da vida, da ressureição, da retoma do mito do eterno retorno, seguidos de noites de Maus Hábitos em que gritamos por F L O R E S !
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II. "Sempre que, de longe em longe, se pressentia tocada pelos sinais de uma paixão, vinha-lhe a imagem do anjo corrupto em seu auxílio. Jogou-a sobre alguns homens nus da sua vida, ela nua também, e por isso continuava assim, igual a si mesma, até na cama onde agora estava sozinha. Por isso podia dizer, como sempre disse: Previno-te, o meu corpo não tem memória."
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In, Alexandra Alpha, José Cardoso Pires
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quinta-feira, 8 de Maio de 2008

Rede




BEATRIZ
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Olha, será que ela é moça,
será que ela é triste,
será que é o contrário,
será que é pintura o rosto da actriz
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o céu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha, será que é de louça,
será que é de éter,
será que é loucura,
será que é cenário a casa da actriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva para sempre Beatriz,
me ensina a não andar com os pés no chão,
para sempre é sempre por um triz
Ai, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha, será que é uma estrela,
será que é mentira,
será que é comédia,
será que é divina a vida da actriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se um arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida
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Música de Edu Lobo, letra de Chico Buarque
Para ver uma interpretação do céu, da Maria João e do Mário Laginha, toca na BEATRIZ
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quarta-feira, 30 de Abril de 2008

anagrama

amor. amora. amara aroma raro. amarro ar. amarar. ara. aro. roma. romã. ramo. morra. marra. má. mao. moa. mão. mora. ora. o mar. ‘omar.
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Ora bolas, ﻋمر, não fui à tua aula.
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terça-feira, 22 de Abril de 2008

Atira o barro à parede...


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...e faz um delicioso bolo do(s) caco(s).
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Argila, Palácio de Mari, II milénio a.C., Departamento de Antiguidades Orientais do Museu do Louvre.
Esta peça servia aparentemente para preparar pão e bolos destinados à mesa real. Foi encontrada numa sala com outros moldes em forma de leão, peixe, pinha e diversas figuras geométricas, perto de um pátio onde se encontravam vários fornos.
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Para outros festins ver ainda BOTTÉRO, Jean, La plus vieille cuisine du monde, s.l., Points Histoire, Éditions Louis Audibert, 2006.
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sexta-feira, 18 de Abril de 2008

2 x assento x 1 = 0


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Evita descansar em parques impossíveis se já não aguardas resposta a perguntas que nunca formulaste.
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quarta-feira, 16 de Abril de 2008

“L'italietta”

A pouco e pouco foram saindo do elevador. O grupo em férias reuniu-se no hall do hotel pelas 19:30. “Ottima programmazione” pois assim não tiveram que abdicar de nada. Tinham respeitado os horários e os silêncios, tinham cumprido os seus deveres católicos, tinham feito os respectivos ex-voto, tinham realizado as suas abluções antes de passar ao repasto e, graças ao fuso horário e ao satélite, às 20 horas do seu país, puderam ver os resultados das eleições legislativas.
A forte adesão às urnas e o resultado de claro bipartidarismo devem-lhes ter aliviado a consciência por terem faltado às obrigações cívicas. Todos reconheciam o estado de emergência do país, as debilidades do sistema eleitoral, o auto-boicote, as forças federalistas, o poder incontornável da mafia, a implosão de algumas forças políticas, a instabilidade resultante da média de um governo por ano desde a II Guerra Mundial, a dívida pública correspondente a 100% do PIB, a ausência de discussão ideológica, a manipulação da informação, a corrupção, a falta de apoio crescente a populações desfavorecidas, a ridicularização de um dos países do G8...Mas nada disso importava a uma hora daquelas, a comida estava óptima e todos mastigavam, bebiam e se afundavam.
Ser turista não é compatível com certos direitos e deveres, pelo que “apenas” abdicaram do seu voto e da discussão franca à mesa. Não quiseram arriscar uma congestão pois a sua argumentação podia não ser bem articulada ou convincente e os convivas podiam não ser complacentes com as trafulhices e a demagogia de Berlusconi, nem estar sintonizados com o discurso violento e xenófobo de Bossi. Por conseguinte, uns poucos denunciavam-se pelo olhar abatido enquanto a maioria se apresentava com um sorriso vitorioso, tímido mas vitorioso.
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No dia seguinte, no aeroporto, o usual voto na despedida:
– “In bocca al lupo!”
– “Crepi!”
Bem precisarão.
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terça-feira, 8 de Abril de 2008

Miscellanea melifera

O Igri é o homem dos sete instrumentos e é também apicultor. Um dia, as suas abelhas fugiram com o frio. Pouco depois a Ju descobriu outro enxame e recebeu o epíteto “a rainha das abelhas”.
O Seu Mateus perguntou-me porque não ia lá a casa comer uma colher de mel se estava doente.
A Anna falou-me em 1993 da Celebração do Mel, do Antoni Tàpies. Em 2000 fui à sua Fundação em Barcelona com a Rititi.
O Dini fez uma fotografia aos bugalhos onde algumas abelhas depositam as larvas.
O πerre deu-me há muito tempo uma vela de cera de abelha.
O Math deu-me o seu pólen de flores. Disse-me para consumir moderadamente pois a sobredosagem pode provocar efeitos nocivos. Hiper energia? O que se faz com a energia em excesso?
(Existem vitaminas lipossolúveis e hidrossolúveis, sendo que as primeiras podem atingir níveis tóxicos no organismo)
Conheci recentemente um rapaz com o nome do rio do esquecimento, Lethe, que em criança fora hospitalizado por excesso de vitaminas.
A Juinha quando era pequenina dizia que tinha que tomar as suas “vitameninas”; agora não tem o luxo de se equivocar.
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No Rif tomei um chá com abelhas. Não eram as mesmas da minha terra, eram maiores, mais dóceis e peludas. Na Península Ibérica existe, não surpreendentemente, a Apis melifera iberica.
Noutros tempos fui picada por uma abelha. Depois chuparam-me o ombro.
Em Bruxelas vi uma mostra sobre a tradição estoniana de pintar as colmeias.
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O mel em oferenda post-mortem a um faraó está próprio para consumo 3 mil anos volvidos.
No Olimpo, os deuses alimentam-se de hidromel e de ambrósia sideral.
Apenas em meados do séc. XVII, com as observações biológicas a microscópio, a humanidade veio a saber que a abelha-mestra é uma fêmea.

O som do fim de um enxame é descrito como um lúgubre e vibrante lamento de desespero.
A dança das abelhas em círculos apertados relaciona-se com o modo de se localizarem geograficamente.
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Pensei de manhã “tenho que comprar mais mel pois este está a acabar”. Peguei no frasco. (A minha mãe disse-me a vida toda para não agarrar os frascos pela tampa.) Parti o frasco de mel pois peguei-lhe pela tampa, porra! Preciso de um fakir que me lamba o chão.
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Na minha rua já chegou a Primavera: as laranjeiras em flor lançam no ar o seu perfume, e as ameixoeiras selvagens já ganharam as folhas da cor do seu nome. Desconheço os efeitos da Estação nas cerejeiras-japonesas e é quase certo que, se voltasse ao local onde as conheci, não as saberia identificar. Não é exclusivo do reino vegetal as espécies deixarem-se reconhecer apenas nalgumas fases do ano.
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Tu, ele, ela, vós, eles, elas fazem parte do meu jardim, ainda que nem sempre perto. Mas agora parto, chegou o tempo do outro tempo e há que polinizar outros campos.
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segunda-feira, 7 de Abril de 2008

Abril, águas mil



Após o dia liso e transparente no mar e com o mar da Sophia*, eis um pouco de cultura rural: o “Verdadeiro Almanaque”, o “Reportório útil a toda a gente”** indica, além da mudança abrupta do tempo, que este é o mês de semear estrelas do Egipto, girassóis e malmequeres, de separar os vitelos das mães e de tosquiar as ovelhas no Quarto Minguante.
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* Coral, Sophia de Mello Breyner Andresen
** Adquiro religiosamente todos os anos o Borda d’Água, uma mina de informações no amplo sentido da Kultur, que me dá também o prazer prosaico de desvirginar uma publicação com a faca de papel, tal como via antigamente os meus avós a fazer com os seus livros.
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sexta-feira, 4 de Abril de 2008

O JOGO É UM ITINERÁRIO

Na minha oficina herética
o labirinto contraria o linear:
percorre-me
como se fosse uma veia
segura em seus meandros

A não-necessidade, o que seria?
que nova desordem criaria?
que outras descobertas?

A fugaz eternidade das ideias-mestras
incessante refaz os jogos da racionalidade
mas o jogo é um itinerário
e a sedução do rigor
recoloca-nos incessantemente na senda do desejo



Ana Hatherly, in Itinerários
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terça-feira, 1 de Abril de 2008

dEUS

No final de um dia excepcional fui trespassada pelo olhar de dEUS. Se uns sete passos correspondem a uns sete segundos, foi esse o tempo consagrado ao seu ponto de fuga (por acaso, eu): uma rapariga observando quem entrava, vestida de vermelho, sozinha, com um copo sobre a mesa, a um ângulo de uma sala índigo.
No dia das mentiras é difícil acreditar mas sim, é bem verdade... eu e o Tom Barman escolhemos o mesmo restaurante no Bairro Alto para jantar.
Não me deixei cegar pelo entusiasmo e, quando me levantei para pagar, confirmei que era ele. Estava como a "minha menina" de ontem, com os dedos a tocar verticalmente teclados imaginários.
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Ainda não saiu o novo álbum e tampouco começou a tournée que, desta vez, até à data, não faz de Lisboa parte das constelações de dEUS, mas o Tommy Bar anda por aí! Adorável.
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terça-feira, 25 de Março de 2008

Histórias de acordar

Um menino de cinco anos encanta o irmão de quatro:

- “Era uma vez (…). A noite era tão escura que nem havia sombras…”
- “Isso é um filme da televisão?”
- “Não, é mesmo verdade. Escuta (…) ”
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sexta-feira, 21 de Março de 2008

Espaço

Na noite de Lua cheia de Fevereiro sonhei que dava uma aula sobre o Médio Oriente Antigo. Falava sobre os oráculos mesopotâmicos e da capacidade de intervir no real através da magia, pelo que mostrei a caixa onde eram depositadas as previsões anuais. Uma caixa em madeira, sem tampa, muito longa, rectangular, subdividida com tábuas na vertical, sendo que cada divisória correspondia a um ano. A longa história da Humanidade numa caixa organizada por unidades temporais regulares! Reparei, sem grande perplexidade, que algumas divisórias não continham dados - hiatos que supus deverem-se ao facto de nada ter sido descoberto, estudado ou descodificado. 2008 era um dos anos vazios.
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A partir das referências geográficas invertidas no ecrã, tive a imagem do que tinha sonhado há meses: o oriente a oeste do ocidente.
Uma das pontas da linha que definia o trajecto da viagem em tempo real já tinha desaparecido, ensarilhada entre a história e a memória. No tecto do avião, uma longa “caixa” invertida com subdivisões que, por acção da gravidade, estava “limpa”.
Na noite em que trabalhava esta fotografia, sonhei que o ano de 2008 se tinha eclipsado. Não sei precisar mais nada. Tampouco sei em que tempo estava.

Na noite seguinte (ontem), no equinócio da Primavera, ocorreu a maior explosão cósmica alguma vez registada. Pôde ser observada a olho nu e teve lugar a 7,5 milhões anos-luz.

O tempo e a distância sempre relativos…
2008, número tão redondo com casos tão bicudos.

Hoje é noite de Lua cheia! Auuuuuuuuuuuu...
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quinta-feira, 20 de Março de 2008

Veio vazio, torna repleto

Se olhares para uma palmeira a contra-luz, verás que as folhas de uma rama se prendem a um veio vazio central. Esse eixo é invisível, porém existe.
Se não acreditares, tanto pior, mas se, ainda assim, quiseres ver, sugiro que feches os olhos. Caso não resulte, parte de férias, para os trópicos, e tornarás repleto.
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Outra inversão: as minhas expectativas não correspondem, felizmente, aos teus planos.
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sábado, 15 de Março de 2008

Calendário

As revoluções dos idos de Março ficam lá para as calendas gregas.
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sexta-feira, 14 de Março de 2008

Banda Sonora do último metro

1:07. 1’04’’ para o próximo metro, o último.
Não é o do Truffaut nem são duas mulheres. São muitas mesmo, numa só.

Entrou quando as portas se abriram. Saiu quando as portas voltaram a abrir.
Ouviu o que disse o funcionário ao colega via inter-comunicador: “Linha verde. A última é uma senhora; está vestida de preto, de calças de ganga, pretas”. Ela poderia ter entabulado uma conversa sobre a Linha Turva e as Calças Vermelhas mas não tinha a certeza de que o interlocutor comungasse do seu gosto musical.
Continuou para o segundo metro. Afinal o primeiro não fora o último. Já não havia quem descesse, só quem subisse. Àquela hora, lá em baixo, o trânsito das massas faz-se apenas num sentido.
Mais à frente, cruzou o olhar com um homem; de facto, estavam à sua espera. “Para a linha verde?”, “Sim, para os Anjos”, “Então, à esquerda”. Seguia, pois, para os Anjos, esse destino quase profético. Se o agente de segurança subcontratado e mal pago fosse um anjo, não lhe tinha dado aquela indicação na encruzilhada. Sinistra? Não, “destra”, diria, mas depois teria que se haver com o chefe.

Na rua propuseram-lhe boleia num skate. Declinou o convite justificando que aquelas rodas só desciam e ela ainda tinha a Forno do Tijolo para subir. Além do mais, aquilo não era a sorta fairytale, apesar de ter apenas duas falanges no dedinho de um dos pés.
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Felizmente que cá em cima a circulação das pessoas se faz em múltiplos sentidos.

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O desajuste informativo manteve-se, e nessa noite sonhou em italiano. Passionnément.
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quarta-feira, 12 de Março de 2008

- S.L.?

- Sim.
O carteiro sorria enternecido quando lhe devolvi a caneta depois de assinar o aviso de recepção. Aquela alteração facial durava há quanto tempo? Terá interceptado a conversa de ontem com a R.? Regozijo de quem arranca as mulheres da cama que lhe abrem a porta ainda com voz de menina e cabelos de sereia?
Toda aquela intimidade agravada pelo silêncio radiofónico incomodou-me. Aliás, há duas semanas que os meus pés nus não eram vistos por outrem.
- Obrigada, bom dia.
- Bom dia, obrigado.
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Alvo anacrónico: Vous êtes ici. C’est le pied!



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domingo, 9 de Março de 2008

Águas de Março

Ao rever a topografia cosmogónica segundo o Enuma Elish* recordo, sem ter vivido.
Entre este mundo mítico e físico há os que ficam mudos e quedos a boiar em águas obscuras, à espera de nascer, à espera de ouvir o seu nome. Por contraponto, os que muito falam e nada me dizem, essa aflitiva profundidade da superficialidade.

Em Lanzarote vi um lago cuja profundidade se ignorava. Dá-me tranquilidade saber que há coisas no mundo reconhecidamente imensuráveis... Esse lago é subterraneamente alimentado pelo oceano e microorganismos conferem-lhe uma tonalidade jade ou malaquite, dependendo da incidência da luz. As águas, passam assim a ser, um enorme e informe bloco de pedra.
A ironia é que como foi classificado Património Mundial da Humanidade ninguém se lhe pode chegar. Não é possível fazer saltar seixos nessas águas, mergulhar nelas, eventualmente caminhar sobre elas, reflectir-se nelas, recolher as suas algas para efeitos de talassoterapia nem navegar com uma jangada de pedra.

Resta-nos fruir da natureza ao largo, reflectir sobre essa distância crítica de segurança e guardar as águas num suporte bidimensional, se não mesmo virtual.

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* Enuma Elish significa “quando no alto” e corresponde às duas primeiras palavras do mito da criação babilónico. Foi fixado com a escrita no II milénio a.C., em sete tabuinhas de argila, descobertas no séc. XIX na biblioteca de Assurbanipal, em Nínive. As semelhanças com a narração bíblica do Livro do Génesis não são meras coincidências.
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quinta-feira, 6 de Março de 2008

Plier, Replier, Reply: À flor da pele

Vejo-te e revejo-me. Vejo-nos. Gosto do tempo que me dás, da força benéfica e da inteligência risonha. Fazes-me ser uma pessoa melhor. Não tenho que explicar as palavras, os livros tratam daquilo que têm lá dentro. E tu lês(-me) por dentro e do avesso.

P.S. Gostamos ambos de experiências científicas mas não me deixes a fermentar. A segunda pele lavas à mão, esfregas, deixas ao sol até que seque. Depois guarda-la, pois pode servir a breve trecho. Conserva também a cota de malha; actualmente os seus elos são inadequados para as batalhas da minha terra.
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Mais ou menos a propósito, vindo de uma das minhas “amigas”:

LEATHER * Look I’m standing naked before you don’t you want more than my sex I can scream as loud as your last one but I can’t claim innocence oh god could it be the weather oh god why am I here if love isn’t forever and it’s NOT THE WEATHER hand me my leather I could just pretend that you love me the night would lose all sense of fear but why do I need you to love me when you can’t hold what I hold dear I almost ran over an angel he had a nice big fat cigar “IN A SENSE” he said “you’re alone here so if you jump you best jump far”

*"Leather", Tori Amos, original in Little Earthquakes, EW, 1992

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quarta-feira, 5 de Março de 2008

alta voz

Exercício de imaginação e dicção a ler em voz alta sem pedir explicações. É preciso desconfiar sempre e acreditar algumas vezes; se não vejamos:
1. “THIS MUSIC HAS BEEN MIXED TO BE PLAYED LOUD SO TURN IT UP” – instruções impressas no Disintegration, The Cure.
2. “SE BOIT TRÈS FRAIS” – sugestão para saborear um refrigerante.
3. “ACENDER SUAVEMENTE NO SENTIDO OPOSTO AO CORPO” – advertência numa caixa de fósforos.

É agora, andarilhos!

LIGO pistas MEÇO palmos COSO fitas ATO nós TREINO voz PINTO lábios
FAÇO figas COMO figos GIRA-discos PEÇO vistos CORRO riscos CRIO fisgas
JUNTO trapos PAGO caro JOGO copas GATA arisca VERTO copos
TROCA-tintas VEJO listas LIMPO olhos SARO chagas JOGO ao calhas
GRITO surdo HADES zagaia DOBRO cabo CAIBO falhas FORÇO forcas, sugo seiva sable
RASPO, RAPO, RALO, CALO, CATO, CORTO, MAÇO, MOLA, MALA, MOÇA, MOSSA, MATO, MATE
VISTO sedas SONHO e sinto LANÇO ares MANDO farpas MORDO isco
digo VENHO ouço BEM rasgo CARA peco e DISPO toco ÁREAS terno CANTO
SIGO e cito PELOS vistos NÃO petisco, SIM petisco andarilho.
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segunda-feira, 3 de Março de 2008

Land[e]scape




As fotografias são norteadas pelos mesmos fios e rios, biombos, barras e barreiras, direcções, códigos, caminhos terrestres e celestes, brilhos e sombras, presença da ausência, vidros, vidas, vidas de vidro, fantasmas, objectos voadores não identificados. O alfabeto é o mesmo ainda que por vezes invertido, vertido e divertido. A minha aparente desatenção foi intencional e por isso não peço perdão. A quem se escreve quando ninguém sabe ler? Qual a função da escrita quando a informação é dispensável, inalcançável, indecifrável, indizível, invisível? A escrita microscópica e as pedras de fundação serviram a muitos e inspiram-me hoje. A História e as histórias continuarão com os seus fluxos e refluxos.

Rendez vous à la lande/ Rendez-vous chez la langue.
Rendi-me sem me perder, sem me prender, sem aprender a rendar.
As elipses acentuam-se como linhas geométricas e figuras de estilo.

Segui por trilhos sem me trilhar
Subverti a urgência de emergir e de agarrar
Suguei, aspergi, fiz as minhas libações secretas
E voltei do futuro com os sentidos alerta.
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segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

Pas de bras, pas de chocolat

Os brilhos nocturnos não são mais os de luzes em stand-by. Apesar da dor de garganta, dorme bem, entre a via láctea. Sonhou que seres do espaço lhe deixavam pontos luminosos indicando um caminho. Não acorda mais com passos na cabeça nem com o "ainsi font font font deux petites marionnettes, ainsi font font font trois petits tours et puis elles s'en vont". Elle aussi, Titi de Paris, n'est plus là, elle est à BXL. Conhece bem a história, "não há bracinhos, não há bolinhos" mas no plat pays existem outros cuidados paliativos. As bicicletas continuam a rolar e o Requiem de Fauré toca em qualquer aparelhagem pelo que a salvação está garantida.

A Caixa Negra vai acumulando dados (por uma semana houve uma falha no sistema).
As saídas de emergência ganham outro dramatismo numa língua gutural.
Os códigos de linguagem são menos infantis, ainda que o coelhinho poliglota tenha cedido lugar ao do da Páscoa.
Continua a ter de reflectir antes de pôr um ponto final.



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sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

Deux temps

Salta a pulga da balança, dá um berro até à França, os cavalos a correr, as meninas a aprender, qual será a mais bonita que se irá es-con-der.

Preparo as mãos e os pés para outras andanças. Parto para outras temperaturas, temperos e temperamentos. O tempo discorrerá saborosamente mesmo com cafés detestáveis, mesmo que eu seja maldita. Os Três Gatos ficarão sem água por uma quinzena.
Amanhã verei o tráfego menos compacto e atravessarei as ruas largas em três tempos ainda que me ditem “deux temps”.

A partida é já a preparação da chegada e vice-versa. Qual será a hora local, a velocidade cruzeiro, atravessando a Espanha de regresso a Lisboa? No torna-viagem de Berlim e sobrevoando o espaço aéreo francês, quando o comandante teve de anunciar a hora local, hesitou, informou, corrigiu, gaguejou, confirmou com o co-piloto e pediu desculpa pela incerteza. A hora é indexada à geografia mas a milhares de pés de altitude, pelos vistos, depende do destino. A hora certa não existe; apenas nos electrodomésticos das fadas do lar (12:00 sempre a piscar) ou na publicidade dos relógios cujos ponteiros marcam invariavelmente 10:10 (fixando o V imbatível).
Não sendo fada do lar, parti hoje o meu bule de vidro. A consolação foi a de ter recordado o Mau Vidraceiro*.

As revoluções ficam para os idos de Março; nos de Fevereiro não, apenas o deleite. E sorrio com os onze músculos dos lábios (da boca).
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* "O Mau Vidraceiro" de Charles Baudelaire in O Spleen de Paris, pequenos poemas em prosa
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quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

Constatação


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sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

NE

Hai lhénguas que to Is dies se muorren i hai lhénguas que to Is dies renácen.

http://www.bragancanet.pt/dicmirandes/in.html

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quarta-feira, 30 de Janeiro de 2008

You are welcome to Elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos a morte __ violar-nos __ tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas __ portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar



Mário Cesariny, in, Pena Capital

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segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008

Páginas que não se folheiam

O instrumento de escrita sempre condicionou a capacidade de organizar ideias, de modo consciente ou intuitivo. Demasiado tempo à frente de um ecrã, a percorrer páginas que não se folheiam, e a fazer deslizar invariavelmente o cursor sobre uma barra lateral, influenciou um sonho que expressa a dificuldade de abraçar a informação e convertê-la em conhecimento. Outros terão sonhado que a argila se esboroava, outros que os palimpsestos se tinham furado de tanto raspar.


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sábado, 26 de Janeiro de 2008

→ (…)



Você está aqui, mas não é nenhuma lebre.

Ela percorre o jardim da Gulbenkian onde a nova sinalética tem a direcção (…). Pelos vistos, alguém deu sentido ao lugar incógnito. Dará conta de (…) quando por lá passar? Será um espaço de liberdade, o início de um policial, o cenário de uma história infantil?
Segue pelas placas de cimento ordenadas geometricamente, animada pelo mistério e pela falsa tranquilidade que a natureza tem para anunciar que algo está para acontecer. Desconhece as lendas do norte da Europa, mas o piar dos pássaros no dédalo de buchos e o rumor dos riachos artificiais convidam-na a prosseguir. No entanto, as grandes janelas que se rasgam no edifício orgânico inibem-na, fazem-na pensar que está a ser observada, para lá da sombra, para lá do vidro. Continua na expectativa de se encontrar em (…), de identificar (…) e dizer “Ah! Só podia ser (…)”.

Finalmente, depois de dar a volta pelo caminho definido e procurando de novo a seta para (…) dá por si no local de partida.





terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

it may not always be so; and i say

that if your lips, which i have loved, should touch

another's, and your dear strong fingers clutch

his heart, as mine in time not far away;

if on another's face your sweet hair lay

in such a silence as i know, or such

great writhing words as, uttering overmuch

stand helplessly before the spirit at bay;



if this should be, i say if this should be -

you of my heart, send me a little word;

that i may go unto him, and take his hands,

saying, Accept all happiness from me.

Then shall i turn my face, and hear one bird

sing terribly afar in the lost lands.





in, xix poems, E. E. Cummings

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domingo, 20 de Janeiro de 2008

Sun in my mouth

I will wade out till my thighs
Are steeped in burning flowers
I will take the sun in my mouth
And leap into the ripe air alive
With closed eyes
To dash against darkness
in the sleeping curves of my body
I shall enter fingers of smooth mastery
With chasteness of seagulls
Will I complete the mystery of my flesh




in, Impressions, E. E. Cummings

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sexta-feira, 18 de Janeiro de 2008

Turismo infinito #

"Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói"



in, Passagem das Horas, Álvaro de Campos

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quarta-feira, 16 de Janeiro de 2008

Intermezzo

Enquanto o homem do berbequim não vem e muito menos o dos violinos afinados, agito-me com os espirros múltiplos do vizinho e com as nocturnas escalas de saxofone de origem desconhecida. É um princípio de uma aventura sinfónica.

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terça-feira, 15 de Janeiro de 2008

De 31 para 1. Um quarto de hora.

O anúncio era claro: a terra estava a girar e durante um quarto de hora podíamos ver a bordo do navio outras paragens, outro país. Todos se aproximaram do convés e eu estava entre a multidão. Apenas o corrimão branco me separava do mar negro ou do abismo. Tínhamos um quarto de hora para encher os olhos de novidades; a terra ia girar e depois nada mais. De repente, numa espécie de cais ou no convés de outro navio, entre outras pessoas, vi-te. Estavas lá, também tu numa sorte de celebração. Estavas bem, feliz e eu sabia que tinha quinze minutos pelo que me apressei a gritar o teu nome. “X=X=X=X!” Tu reagiste em direcção ao som mas havia uma luz branca do navio que incidia sobre o cais e que te cegava. Apenas te apercebias das silhuetas que cortavam o halo. Chamei-te novamente ao que respondeste na minha direcção, “levanta o braço!”, mas estava muito barulho e havia muita gente. Tu começaste a acreditar que eram apenas ecos e eu não conseguia acenar o suficiente para que me individuasses.
Sabia que já tinha menos de quinze minutos. Não era a embarcação que viajava mas sim a terra que escorregava e nada havia a fazer.

Acordei fazendo força com o ombro, contra o peso dos cobertores, e com um grito preso na garganta.

Eu vi-te, tu ouviste-me, mas não o soubeste.




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Arquivo

Acerca-te de mim, viajante

Sofia
P.S.: Os conteúdos da Elipse são da minha autoria (excepto quando referido), e devidamente protegidos por tormentas e bolhas de amor.
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